domingo, 25 de agosto de 2013

Holocausto brasileiro - Daniela Arbex

Holocausto brasileiro
Autor: Daniela Arbex
Editora: Geração
Ano Edição: 2013
Número Edição: 1
Páginas: 255
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*Cultura*Saraiva

Para quem ainda não sabe, sou psicóloga.
Estudei em Belo Horizonte e fui doutrinada na cultura anti-manicomial.
Os mineiros possuem uma grande vergonha, uma mancha gigantesca em sua história, chamada Hospital Colônia de Barbacena.
Durante muitos anos, foi um local de depósito, segregação e desumanização de pacientes com supostos transtornos mentais.
Após uma série de denúncias, e 60 mil mortos, as autoridades tomaram medidas que ainda hoje estão sendo implantadas.
Como fruto desse período obscuro da história psiquiátrica brasileira, temos o museu da loucura, um dia de conscientização, muitas palestras e a divulgação constante para que esses fatos nunca voltem a ocorrer.
Esse livro é um ato de divulgação, uma tentativa de dar voz a essa horrível história criminal do sistema brasileiro.
Barbacena foi um cômodo (ou incômodo) lugar onde todos que perturbavam quem detinha mais poder poderiam ser 'desovados'.
As internações eram indiscriminadas e indicadas por pessoas sem o menor treinamento em saúde mental.
Assim, prostitutas, alcoólatras, ativistas políticos, meninas que perderam a virgindade 'antes da hora', esposas cujos maridos estavam mais interessados nas amantes foram deslocada para esse ambiente de 'recuperação mental'.
Estima-se que 70 por cento dos internos não tinham diagnósticos e histórias bizarras como do Sr Antonio que ficou meio século internado sem que ninguém soubesse que ele não era mudo ocorreram.
A desumanização do sujeito era via de regra.
Ao ser recepcionados, os pacientes perdiam as roupas, os cabelos, os documentos e até o nome.
Andar nu perturbava nos primeiros dias, depois se habituavam com a nova realidade na tentativa de sobreviver.
Para as mulheres era mais cruel, pessoas que nunca tinham exposto seus corpos se viam em uma situação completamente contrária há anos de doutrinamento familiar.
Calcula-se que pelo menos 34 crianças foram depositadas em Barbacena e inúmeras nasceram lá, sendo usurpadas de suas mães.
A eletroconvulsoterapia era aplicada como castigo e intimidação e em tal freqüência que a rede elétrica da cidade não suportava.
Os procedimentos eram executados por pessoas sem nenhum preparo ou conhecimento técnico.
A morte era tão presente que criou-se uma indústria de comercialização de corpos para universidade e quando os corpos sobravam, eram postos em tonéis de ácido para comercialização dos ossos apenas.
Esse processo era realizado pelos outros pacientes, colegas dos finados.
Chegou a morrer 16 pessoas por dia em Barbacena.
As causas eram frio, fome, doenças relacionadas a sujeira e maus tratos.
Em um ambiente projetado para 200 internos, encontravam-se 5000, sendo 'necessária' uma adaptação ao ambiente.
As camas foram removidas e em seus lugares, colocaram feno instituindo o leito no chão.
Para as autoridades foi um sucesso tamanho que se recomendou a aplicação do 'procedimento' a outras instituições.
Não tinha comida para todos e a que tinha muitas vezes era depositada em valas coletivas para que os pacientes comessem com as mãos, tal qual porcos, gado.
O esgoto era presente no ambiente todo, tornando o ar insalubre e disseminando mais doenças.
A crueldade, o crime, a violência são males que nos rodeiam e que sempre nos causa horror, mas quando nos deparamos com histórias como a da menina de 15 anos depositada numa cela com 20 homens no Pará ou com Barbacena o choque é mais intenso.
A crueldade coletiva, a incapacidade de julgamento moral e ético de prestadores de serviço é indignante.
Barbacena pôs a prova nossa incompetência em discernir responsabilidades e culpabilidade.
Quando falamos em holocausto nazista, pensamos em horrores de uma guerra.
Houve um julgamento para crimes de guerra.
Quando falamos em Barbacena como podemos explicar os fatos?
Muitos já haviam denunciado os absurdos ocorridos lá e sistematicamente as denúncias foram ignoradas pelo poder público.
Seus denunciantes sofreram perseguições e até processos administrativos correndo o risco de perda do direito de exercício da profissão.
Precisou de um psiquiatra internacional, Franco Basaglia, para que essa história incomodasse?
Precisamos cair nas ruínas internacionais do escândalo para tomar providências?
Infelizmente sim, caros!
Nosso potencial de crueldade é infinito.
Ler essa história que para mim é antiga e 'batida', me rememorou um antigo mal-estar.
Conheço a história, conheço o Colônia, conheço os espaços descritos nas imagens e letras do livro, sou uma ativista da luta anti-manicomial há anos.
Conheço outros espaços que reproduziram isso como: Franco da Rocha, Galba Veloso, São Pedro e Raul Soares.
É impossível não se enojar com os relatos.
Como profissional da saúde mental fica a reflexão necessária para que isso nunca se repita e para que a reforma psiquiátrica seja sempre repensada e rediscutida.
Um livro meticulosamente cuidadoso com as memórias das vítimas e narrados com a maestria de uma jornalista premiada.
Uma obra de grande importância para profissionais e não intencionados nessa área. 
Um testemunho primordial para a compreensão das mazelas humanas.
_A medicina brasileira tem tradição de cárcere. Por isso, a lógica de internação faz com que recursos médicos sejam predominantemente hospitalares, subtraindo recursos do tratamento ambulatorial, comunitário, aberto. (pág 225)
_Quem encarcera, seda e isola não acredita na razão, nem no resto dela. A lei da reforma psiquiátrica, ao contrário, é humanista, mas baseada em fundamentos técnicos da própria medicina, os quais permitem a realizaçãon do tratamento em liberdade. (Pág. 227)
_A lei não desconhece a doença mental. Ela regula a forma de tratá-la. A insuficiência do tratamento não são da lei, mas da deficiência na sua aplicação. A doença é uma coisa normal da vida. O que não é normal é não haver convivência pacífica com ela. O maior problema ainda é a dificuldade de aceitação da dificuldade do outro. A reforma psiquiátrica é, de certa forma, a abolição da escravidão do doente mental, seu fim como mercadoria de lucro dos hospitais fechados, da exploração do sofrimento humano com objetos mercadológicos. 
Abaixo um curta premiado de Helvécio Ratton filmado na tentativa de denunciar e sensibilizar a opinião pública da época.

2 comentários:

Lili disse...

Vergonhoso e triste...
O que foi feito dessas pessoas? Sobrou alguém para contar a história?
Porque a maioria da população desconhece essa cidade, esse hospital?
Porque até hoje existem pessoas que acreditam no tratamento manicomial, depois de uma história de fracasso, de segregação, de mazela?
Muito triste mesmo...

Denise Ayres disse...

Sobrou sim, Lili.
Hoje moram em residências terapêuticas com auxilio do governo, alguns recuperaram laços, outros até constituíram família.
Uma tristeza sem precedentes, que alguns conseguiram sobreviver e seguir adiante.
60.000 mortos não é pouco, né?
Todos os anos em Minas temos no 18 de maio eventos para incluir a sociedade nessa história, com passeatas, eventos culturais.

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