quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Especial: vestibular x literatura

Sei que parece que ando meio sumida, mas vou contar a vocês como está minha rotina.
Tenho uma filha de 17 anos que está se formando/fazendo vestibular.
Essa moça tem um sonho, quer fazer medicina.
Como a mãe dela é uma jovem trabalhadora e solteira, ela só tem opção de cursar sua sonhada faculdade na federal.
Para atingir esse objetivo, que convenhamos não é nada fácil, nossa guerreira está há três anos se dedicando.
Com a proximidade das provas, a tensão foi tomando corpo e nossa assustada candidata foi ficando cada vez mais histérica (acho que é a melhor definição).
No último dia de inscrição, eu soltei um 'devia ter me inscrito e feito contigo para que ficasse mais tranquila' e não é que ela se empolgou com a ideia??
Enfim, me inscrevi no último dia e fiz as provas.
Detalhe: há 18 anos não leio uma linha de segundo grau.
Mas é tudo pela minha filha, então, vamo-que-vamo.

Fiz as provas no escuro e nas propostas de redação me deparo com a seguinte sugestão:
Quando estamos em dúvida sobre assistir a um filme ou espetáculo, ler um livro ou comprar um CD, a leitura de uma resenha pode nos ajudar na decisão. Se o resenhista apresentar informações e opiniões que nos convençam de que é uma boa opção, teremos elementos favoráveis para fazer a escolha. Caso contrário, poderemos desistir de assistir ao filme/espetáculo, de ler o livro ou de comprar o CD.
Atualmente, vários sites/blogs voltados para a divulgação de obras literárias abrem espaço para que leitores enviem resenhas de livros. 
Escreva uma resenha sobre um dos livros indicados abaixo como se fosse publicá-la em um site/blog voltado para a divulgação de obras literárias. Assine obrigatoriamente como 
“Candidato Vestibular/UFSC/2013”.
a) AMADO, Jorge. Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 283 p.
(1ª edição, 1937)
b) ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo: idílio. Rio de Janeiro: Agir, 2008. 181 p. 
(1ª edição, 1927)
Daí, pensei: 'É claro que só indicaram livros atuais para o vestibular'.
Não fiquei só no pensamento e resolvi investigar, tivemos as seguintes indicações para a Universidade Federal de Santa Catarina:
  • Amar, verbo intransitivo - Mario de Andrade - 1927
  • Beijo no asfalto - Nelson Rodrigues - 1960
  • Capitães de areia - Jorge Amado - 1937
  • Ecos do porão - Silveira de Souza - 2012
  • Geração do deserto - Guido Wilmar Sassi - 1964
  • Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antonio de Almeida - 1852
  • Memórias sentimentais de José Miramar - Oswald de Andrade -1924
  • Poesia Marginal - Diversos autores - ??
Então?? 
Dá aquela vontade de correr na livraria e ler tudo, né? *só que não*
Pior que essas obras, quando sugeridas a vestibular, vão a preços astronômicos.
Fato que, convenhamos, nos dá mais ainda prazer em ler, né?
Não me levem a mal, adoro clássicos.
Aprendi muito nova que a leitura de 'Sabrinas', 'Biancas' e 'Paulo Coelho' eram mais alienantes que a ausência de leitura (pasmem!!).
Aprendi que era vital para o desenvolvimento crítico a leitura de um clássico por semana e não pensem que foi aí que aprendi a amar livros, porque não foi.
Não sei se já comentei, mas além de diplomada em 'formação em psicologia' também possuo diploma de 'licenciatura plena em psicologia' e para tê-lo li bastante Paulo Freire.
Tal autor prega a necessidade de aproximar a aprendizagem da realidade do aluno.
Portanto, deveria-se alfabetizar com bulas de remédio, manual de instrução de tv, revistas e gibis.
É nesse ponto que me questiono o porquê de trazer a baila no vestibular obras tão antigas?
Não temos qualidade em obras literárias atuais?
Vocês observaram que das oito obras apenas uma (ok! deixarei a dúvida de duas) têm idade inferior a 40 anos?
Não que Nelson Rodrigues consiga 'denunciar sua idade', mas as demais são beeeem anciãs, exagerei?
Chego a vislumbrar a imagem de alunos cochilões, depois de horas de cálculos e  leituras históricas, batendo a testa em cima desses livros.
Reafirmo, são ótimos, mas com linguagem nada atual.
Como incentivar nossos alunos a apreciarem a leitura com essa técnica? 
Não facilitaria se optássemos por um livro 'das antigas' e atualizássemos as outras indicações para autores contemporâneos?
Calma, gente!
Não estou sugerindo Harry Potter, Crepúsculo, nem Cinquenta tons de cinza, mas um Chico Buarque, Dráuzio Varella, Luiz Fernando Veríssimo, Lya Luft, João Ubaldo Ribeiro e até Jô Soares seriam mais próximos da realidade gramatical de nossos sofridos vestibulandos.
É só uma ideia que me ocorreu, ninguém precisa concordar...
Triste que autores de qualidade só saibam que serão referência em vestibular pós-morte.


4 comentários:

naughty.pixxie disse...

nunca li os livros do vestibular (fiz durante 3 anos).. =| assisti em forma de peça, pra tentar lembrar da história..

não gosto desses clássicos da literatura brasileira.. =/ e não pq são antigos, eu acho, mas nunca consegui gostar da escrita e das histórias

meu TCC foi sobre Gabriela, Cravo e Canela (eu não queria, mas foi), e eu li umas 3 pgs, não consegui passar disso
queria ser "culta" e gostar, mas acho chatíssimo.. =/

como tu comentou ali, acho que seria interessante dar uns ares novos pra essas coisas, inroduzir pessoas mais "atuais"

Marina Kolling disse...

Oi Denise. Primeiramente, gostaria de ressaltar que gosto muito das suas resenhas, pois elas vao alem das historinhas dos best sellers internacionais e sao inteligentes e nos abrem para a discussao. Gostei muito do topico desse post e vim aqui para deixar a minha opiniao que difere um pouco da sua, mas vamos la.
Acredito que restringir a leitura de classicos nacionais nas nossas escolas seria uma perda muito grande para um sistema educacional tao precario e elitista. Distanciar alunos de classicos tao ricos como as obras de Machado de Assis e Jose Alencar seria o equivalente a abolir das escolas americanas Hemingway e, Shakespeare, das inglesas. Para mim o impasse da monotomia das aulas de Literatura esta no metodo de aprendizagem que consiste basicamente na imposicao de leituras e posteriormente na feitura de provas sobre os livros ( tendo como pico o vestibular que e ao meu ver um sistema de selecao injusto e ineficaz). Acredito que deva existir um incentivo maior a leitura de classicos deixando livre a escolha de obras, trazer para a sala de aula os livros em formas de jogos, adaptacoes de obras em filmes, fazer com os alunos sarais literarios, enfim, dar pelo menos a oportunidade dos alunos gostarem de um classico nacional que com certeza e essencial na construcao da identidade da cultura de um pais.

Denise Ayres disse...

Oi, Mariana!
Obrigada pelo carinho.
Concordo com sua opinião e compreendo a importância dos clássicos, não queria dar a impressão de restrição a literatura nacional, portanto, me desculpo por esse quesito.
Meu questionamento foi no trazer mais prazer nas indicações, pois, creio que obtendo o prazer e o hábito de leitura, gradualmente, vamos exigindo maior qualidade nas escolhas literárias.
Obrigada por sua pertinente e oportuna contribuição.
Volte sempre!
Discussões sempre enriquecem o contexto.

Amanda disse...

Oi, achei seu blog agora e já estou adorando!
Eu tenho 18 anos e tbm sou uma pré-vestibulanda de medicina, meu problema é que sou de SP e presto a tão concorrida USP tornando tudo mais dificil ainda.
Eu concordo com você sobre esses classicos do vestibular.
Para os amantes da leitura terminar um livro desses pode até não ser um problema tão grande, mas continua sendo um problema.
Estamos no sec. XXI e ainda teimam em colocar classicos antiquíssimos nas provas do vestibular.
São tantos livros que temos de ler e ainda ter uma visão critica sobre eles para pode fazer uma prova com decência.
Concordo plenamente com você com o fato de colocarem algo mais proximo da realidade dos jovens de hoje em dia, mas o fato é que colocar esses classicos nas provas seleciona os com mente mais critica, acho errado pois teriamos isso com os bons livros de hoje, mas sabe-se lá
como eles pensam, talvez seja para tornar tudo mais dificil para nossa vida de vestibulando.
Bjs

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